Conhecem a famosa história da sabotagem do show da Graforréia Xilarmônica, minuciosamente elaborada por Flávio Basso e Alexandre Barea, e que acabou na funerária da esquina da João Telles? E a história oficial de Mr. Lee, contada pelo próprio? Ou a história das gravações do disco Rock Garagem, considerado um marco na história do rock gaúcho? E o dia em que Os Cascavellettes tocaram playback na Discoteca di Chacrinha ? Você sabe qual é a relação entre a canção "Sob um Céu de Blues" e Bob Dylan? E sabe quem é a musa inspiradora de “Camila, Camila”, do Nenhum de Nós? Não?
As respostas e, muitas outras estão no livro "Gauleses Irredutíveis – Causos e Atitudes do Rock Gaúcho" (Ed. Sagra Luzatto) É um livro de entrevistas organizado pelos jornalistas Alisson Avila, Cristiano Bastos e Eduardo Müller é um achado. A obra mostra o resultado das 167 entrevistas feitas com quem viveu o cenário musical no Rio Grande do Sul, desde a explosão de Bill Halley e seus Cometas até os dias de hoje. Entre várias histórias que compõem Gauleses Irredutívei, o ex-integrante do Taranatiriça, Marcelo Truda, contou o curioso début da banda em apresentações no interior, em meados dos 80.
“A gente ainda não sabia bem sobre equipamento e tal”, revela. “Era um troço ridículo, de tocar em lugar pequeno. E tinham vendido uns 3000 ingressos. O produtor sujeito veio contemporizar, dizendo que tava tudo OK”. “O cara pegou um garrafão de vinho Sangue de Boi e disse: Fiquem tomando e relaxem, que vai dar tudo certo’. Bebemos até a apresentação e no palco, já no primeiro acorde, foi pro pau. Direto na mesa, e sem retorno, a gente não ouvia o que tava tocando lá na frente. Detonamos o Sangue de Boi, e o pessoal adorou o show. Aí veio o padre que havia cedido o espaço para a apresentação, pra falar conosco. E a gente não conseguia nem falar, de tão bêbado. Ele veio me cumprimentar, e eu não balbuciava nada, enrolando a língua. O Ronaldo chegou, e disse: ‘Padre, não leva a mal, ele bebeu o Sangue de...’ O Ronaldo chegou, e disse: ‘Padre, não leva a mal, não leva a mal, ele bebeu o Sangue de...’ mais não conseguia se lembrar do nome do vinho: “o Sangue...sangue de.... de Cristo!”.
Também fala do dia em que o radialista Júlio Fürst teve a feliz idéia de gravar artistas locais e colocá-los no éter pelas ondas médias da rádio Continental — líder de audiência no segmento jovem, na década de 1970: “Fui convidado para fazer parte do júri do festival da PUCRS, o MusiPuc, e vi coisas incríveis em cima do palco”. Fez-se a luz: “Deu um brilho — eu, com um espaço de uma hora na melhor rádio de público jovem, aquele trabalho magnífico aqui, e tinha rock”. Apesar dos percalços do projeto, ele pensou: “Agora o segundo passo é convencer patrocinador, que é quem manda no programa, eu não vou mudar sem consultar eles”. Fui convencer o eles, e disse: ”O negócio é a música local, de Porto Alegre”.
Se comprometeu de pôr os caras dentro do estúdio da rádio, um por um. “Nós vamos gravar de noite, e vamos colocar isso no ar”. Eles responderam: “Tudo bem, mas se não der certo, aí acaba o patrocínio”. Fürst explica que começou em cima do pessoal do MusiPuc, e foi botando de leve o pessoal no estúdio de produção da Rádio Continental, que era uma gravadora Ampex’, de dois canais e com um microfone: “O que a gente fazia era colocar o vocal na frente do microfone, as violas ao lado, a percussão atrás. Não havia mixagem, tinha que gravar tudo numa tacada só. Era artesanal, mais porque tinha muita coisa acústica, o que facilitava”.
No início, os tapes iam ao ar no fim do programa: “O retorno foi imediato, foi uma bola de neve. Alguma coisa era reformulada na rádio, outros gravaram tudo na Continental, e o programa virou local”. Desta forma, Fürst passou a produzir os concertos, que se chamavam Vivendo a Vida de Lee. “Em três anos, fizemos doze concertos — o primeiro foi no 13 de agosto de 1975, no Presidente. 3000 pessoas, sendo que a capacidade era de 1000. Tinham coisas como o Cálculo 4, o Inconsciente Coletivo. O Hermes Aquino, que lançou “Nuvem Passageira” naquela noite, uma música que ele tinha feito dois dias antes. Foi um sucesso, e estourou como sucesso nacional meses depois”.